Periferia *
Ela caminhava molenga, úmida entre as côchas, sob o calor de 39 graus naquele bairro periférico, num domingo de início de mês, onde a população se movimentava freneticamente em compras de alimentos e quinquilharias.
Quando entrava numa das empoeiradas lojas, não compreendia a passividade dos atendentes diante do mormaço e da obrigação de estarem ali, em pleno domingo de descanso partilhando de todo aquele frenesi.
Eram ruas movimentadas de carros, ônibus, bicicletas e motos. Faixas multicoloridas atravessando as ruas anunciava mais um baile funk. Rádio de poste gritava a promoção de carne seca e picolé de côco.
E mais lojas se erguiam nas ruas estreitas, entulhadas de lixo, com seus animais pestilentos e magros em busca de restos.
Aquele progresso desordenado sob uma tarde de inverno com temperatura de verão lhe causava uma certa inquietação. Conjecuturava acerca da sua importância dentro daquele contexto social. Ela usufruía daquele movimento contínuo de luta pela sobrevivência.
O seu vestido de tricoline estampado de vermelho e azul foi comprado numa loja de departamentos fresca de ar condicionado com propaganda na TV. Sua nuca suava debaixo dos encorpados fios de cabelos cuidadosamente pranchados por uma gorda cabelereira não sindicalizada dum salão próximo à sua casa. E mesmo assim ela queria estar longe dali, daquele vai e vem de gente que trabalha loucamente para consumir pantominas e breguelés do progresso do mundo que gira, se aquece e se inunda de destroços e fantasias.
Talvez ela se esquecece de tudo, e se dirigise pra 8 kilômetros dali, mergulhasse numa cachoeira mesmo apinhada de gente, da mesma gente.
*Aurbana
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